Traição Narcisista (2013)

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Funções:

  • Co-autor
  • Co-designer de instalação

Texto abaixo de: Grenda Lisley, Lilian OliveiraLuly PinheiroRafael de Jesus, Saulo Monteiro

Teoria:

Introdução
O espelho é local de assimilação psíquica para a construção de uma auto-imagem. Presente no processo de desenvolvimento de subjetividade nos primeiros anos de vida, o espelho é instrumento para a síntese de um novo ponto de vista de si, rompendo com a primeira imagem do corpo, fragmentada e perspectivada do ponto de vista do olho nu. O espelho proporciona uma experiência de assimilação de “corpo inteiro”, permitindo um entendimento das relações motoras com o espaço e provê informações para uma auto-compreensão do indivíduo como elemento performático no meio social.
Partindo da ideia de que o espelho é um dispositivo óptico passivo, não eletrônico, que opera a única função prática de refletir a luz incidente (sob as leis da reflexão no plano), o mesmo não pode compor figurativamente o que não está no seu campo de captura, não pode representar um indivíduo ou um movimento não performado em corpo e matéria diante de seu campo de captura.
Após o reconhecimento da passividade da imagem do espelho e que a mesma não se trata de um recorte horizontal oposto à direção do olhar, mas sim um organizador do “eu” no espaço, na realidade, passa-se a encarar o dispositivo como representante imagético de performance do indivíduo, provedor de informações que nos primeiros anos de vida servem como base de auto-conhecimento e posteriormente ferramenta de constatação de alteridade ou não, baseada em avaliações passadas.

O corpo passa por diversas transformações diárias em nível metabólico e físico, porém dada as sutilezas das mudanças, o sistema cognitivo humano tende a não relevar tais processos, mantendo nossa auto-imagem mental intacta, o que impede o indivíduo de notar a relevância mórfica do processo de envelhecimento e pequenos movimentos involuntários de seu corpo.
Sendo a imagem de si no espelho previsível e todos os movimentos realizados diante dele reconhecíveis do compedium performático do indivíduo, a experiência do dispositivo não causará aversão ou desencadeará protocolo institivo inicial de fuga, pois não se trata de um corpo estranho, mas de uma reconhecida imagem controlada pelo “espectador”, logo não impõe nenhum risco.

Neste momento, o indivíduo suspende seu status vigilante para prezar a imagem como um display de informações cosméticas, e apto para uma experiência lúdico-narcisista. Nosso conceito para este trabalho propõe problematizar esta confiança diante da própria imagem, idealizando um dispositivo capaz de subverter um espelho para eletronicamente controlar sua imagem a fim de provocar uma estranheza do indivíduo diante de sua imagem que lhe trairia. Pequenos movimentos do corpo e da face, muitos deles imperceptíveis pelo olho humano ou descartados na cognição, servirão de variáveis disparadores de distúrbios na imagem narcisista, sutis distúrbios remodeladores do rosto. O objetivo do dispositivo é analisar a quebra da estagnada vigilância e a relação diante da traição da própria imagem.

Traição Narcisista

Em nível biológico, a imagem tem papel fundamental para suprir o aprendizado impossibilitado pela limitação fisiológica do ser humano nos primeiros anos de vida, que o impede de explorar o meio e experimentá-lo. Através da observação dos semelhantes, a criança aprende formas de interagir no mundo. O espelho exerce papel fundamental para que o indivíduo perceba como é percebido no mundo, a partir da possibilidade do mesmo se ver de corpo inteiro.

Nos primeiros contatos com o espelho, a criança não compreende o espelho como um dispositivo refletor, mas acaba encarando-o como um pedaço no mundo externo. Por meio de interações performáticas, percebe a existência de uma natureza não corpórea no avatar que reage, e aliena-se na capacidade de controlá-lo, numa relação narcisista. A partir das experiências com o reflexo de si, alimentadas e repetidas pelo júbilo lúdico de controlar a imagem, constrói figurativamente uma definição imagética do self, e posteriormente do ego.
Perde-se o fascínio lúdico devido a revelação do dispositivo, ao descobrir a natureza óptica do espelho como um refletor do que está diante dele. Ao fim do estágio jubiloso com o espelho, o mesmo adquire o mero caráter de checagem da aparência estética e atualização de características do corpo revelantes a curto prazo. O dispositivo perde sua natureza de imagem-experiência e passa a ser um mecanismo gerador de imagem-informação, onde numa relação binária de “sim ou não” produz dados rápidos para averiguar se tudo está em conformidade com prévias imagens de sim.
Tomemos como exemplo uma relação cotidiana comum, em que o indivíduo checa seu rosto todos os dias pela manhã. Ele busca rapidamente descobrir informações básicas como: aparecimento de rugas, cortes, etc. Não procura relações de longa duração com a imagem, pois a mesma não traz mais prazer como nas primeiras experiências. Nessa diária apreensão superficial de si, os detalhes irrelevantes ou mínimos passam despercebidos, evoluem lentamente, e não se nota o envelhecimento. Ao longo do tempo o cérebro atualiza tais dados, mas não retorna uma notificação de “grande alteração ocorrida.” Há também pequenos movimentos musculares involuntários imperceptíveis ao olho humano.

Numa experiência qualquer de um ser humano adulto com o espelho, a análise cognitiva inicial identifica o dispositivo e a imagem, descarta qualquer possibilidade de ameaça pois a imagem se trata de um reflexo do próprio indivíduo, logo é totalmente previsível. Nesse momento, os níveis de vigilância do indivíduo são reduzidos, caindo numa sensação de segurança.

Se esse espelho fosse capaz de subverter a imagem refletida, tomando controle figurativo ou orgânico da imagem, o cérebro repensaria imediatamente todo o protocolo de segurança vigente, tendo como reação inicial uma sensação de estranheza ou repulsa, dependendo do nível de alteração da imagem. A estranheza causada seria confrontada com o conhecimento comum do modo de operação do espelho, e a conclusão emocional dependeria de fatores subjetivos que precisariam ser analisados. A conclusão lógica seria produto de uma análise minuciosa por experimentação desse dispositivo mutado, de descoberta das reações por ações diversas.

 

O Dispositivo
A imagem especular no cotidiano é uma imagem que passa desapercebida. Por mais que se pare para olhar-se num espelho no meio de uma loja ou em um banheiro, não se tem uma percepção profunda dessa imagem, é como uma rápida análise dos caracteres salientes. Não se analisa a imagem-objeto que te olha de volta num espelho do banheiro de um shopping. E esse é o primeiro dado do dispositivo: fazer com que ele não seja percebido como obra. Instalá-lo em um lugar de passagem, em um espaço onde a percepção do espectador não esteja voltada para a obra, para que ele seja, efetivamente, pego de surpresa, seja traído por sua própria imagem.

O dispositivo consiste em um espelho com uma câmera acoplada que capta a imagem do espectador e, em tempo real, um software usa essa imagem alterando-a, de forma a evidenciar micro movimentos no rosto refletido do espectador, causando uma estranheza quando o mesmo se dá conta do que está acontecendo e isso reativa seu estado de auto-vigilância. O software dá a ver esses micro movimentos que o rosto já faz, mas que são imperceptíveis a nós. Ele os evidencia, de forma sutil, a fim de quebrar a percepção automática, para reativar essa auto-vigilância; fazendo com que a sensação de conforto e segurança diante da própria imagem seja rompida.

Além de ser colocado em local de passagem, de substituir um espelho que já estaria nesse local, faz parte da intenção filmar as reações dos espectadores deparando-se com os estranhamentos de suas imagens e, a partir disso, talvez, desenvolver uma exposição com esses rostos se examinando, se estranhando, tentando descobrir o que há de errado, e enxergar possibilidades estéticas e de discurso que esse trabalho possibilita.

 

Fontes de consulta

 

SILVEIRA, Léa. Posição do estágio do espelho na teoria lacaniana do imaginário. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rdpsi/v17n1/v17n1a09.pdf> Acesso: 29 de novembro de 2013

KRAUSS, Rosalind. Vídeo: a estética do narcisismo. Disponível em: <http://pt.scribd.com/doc/55442875/Rosalind-Krauss-Video-A-estetica-do-narcisismo> Acesso: 29 de novembro de 2013

LE MIROIR. Ramon e Pedro (Antoine Tyngueli e Laurent Fauchère). Suíça, 2010. Vídeo digital.

DOVE RETRATOS DA REAL BELEZA (VERSÃO ESTENDIDA). Campanha publicitária multinacional, 2012. Vídeo digital.

 

 

A instalação não chegou a ser executada

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